ANÁLISE: “Mérito Legislativo?” Evento tinha potencial, mas foi esvaziado e absolutamente irrelevante


Bem intencionado, ao menos no discurso, e organizado, o evento foi tão esvaziado que nem a própria falta de público gerou repercussão

A proposta era boa. Aliás, muito boa. Nesta semana, a Câmara Municipal de Ponta Grossa realizou uma sessão solene para homenagear ex-vereadores que passaram pela Casa desde 1973. Um gesto institucional importante, que, no papel, reforça memória, valoriza trajetórias e reconhece o papel do Legislativo na construção da cidade.

O problema não estava na ideia. Estava no timing e, principalmente, na resposta.

Realizado no Teatro Marista Pio XII, o evento convidou 136 ex-parlamentares. A expectativa era de casa cheia, discursos simbólicos e uma noite de reconhecimento institucional. Mas o que se viu foi outra coisa.

Cadeiras vazias. Muitas. Inúmeras, diversas!

A adesão abaixo do esperado é sem dúvida, veja você, um sintoma. E dos claros.

Ora, como é possível uma homenagem institucional não mobilizar nem os próprios homenageados?

Uma das explicações, nobre leitor, é a seguinte: eventos desse tipo, em ano pré-eleitoral, raramente são apenas protocolares. Também servem como termômetro político e espaço de articulação. Nada ilegal nisso. Faz parte do jogo.

O problema é quando o jogo não tem crédito junto à ninguém. E mediante esse sinal de engajamento xoxo, capenga, manco, anêmico, frágil e inconsistente, parafraseando uma grande jornalista global, tem pré-candidato ao Legislativo Paranaense dormindo de cabeça quente por aí.

A baixa presença, tanto de ex-vereadores quanto de atuais parlamentares, sugere algo mais profundo: falta de conexão. Não apenas com a população, mas dentro do próprio meio político.

Estas eleições ensinarão alguns políticos que candidaturas são construções. Não se ganha uma eleição sozinho, ou ao lado de meia dúzia de políticos que prometem ajuda.

Há realmente um “mérito legislativo”?

A Câmara vem acumulando desgaste com decisões recentes, como aprovações de projetos polêmicos, aumento de tributos e uma percepção crescente de alinhamento automático com o Executivo Municipal. Para parte da população, o Legislativo deixou de ser contraponto e passou a operar como extensão administrativa. Sem mérito, por ora.

Nesse contexto, falar em “mérito legislativo” exige credibilidade, não um diploma pra empoeirar nas paredes de ex-legisladores.

Talvez o mais simbólico de tudo seja justamente o que não aconteceu: não houve repercussão.

Nem celebração.
Nem crítica mais ampla.
Nem defesa enfática.

O silêncio pós-evento foi quase tão eloquente quanto as cadeiras vazias durante a cerimônia.

O que deveria ser uma noite de valorização da história política local acabou funcionando como um retrato involuntário do presente: um Legislativo que tenta se afirmar, mas não mobiliza nem a si mesmo. Organiza, mas não engaja. Homenageia, mas não é prestigiado.

No fim, ficou a sensação de que o evento disse muito mais sobre o momento atual da política em Ponta Grossa do que sobre o passado que se pretendia celebrar. E talvez esse tenha sido o diagnóstico mais incômodo da noite.

Posts Similares